Apresentação

A forma é muitas vezes definida por oposição à matéria, aos dados imediatos da sensação, bem como ao conteúdo, ao tema, ao significado ou à função, como princípio organizador ou estrutura. Do reconhecimento visual da natureza característica e perceptível de uma coisa, ou de uma classe de coisas, até o sentido abstrato de essência, a forma revela-se como uma constante cognitiva, algo que nos permite conhecer ou reconhecer entidades distintas. Tal conotação cognitiva da forma é um tema recorrente na longa tradição da estética ocidental, o que lhe confere uma importância que não é compartilhada pelas qualidades meramente sensoriais.

A noção de forma foi, na verdade, decisiva para a própria constituição da estética como disciplina filosófica autônoma ao longo do século XVIII. Como se sabe, esse conceito desempenha um papel central no projeto kantiano que visa a fundamentar a possibilidade de erguer uma pretensão de universalidade para nossos juízos de gosto. Na Crítica da faculdade do juízo, a beleza é identificada com uma finalidade sem fim, formal, sem referência a outros valores, ao conhecimento, à moralidade ou à utilidade, o que significa que ela não diz respeito à matéria do objeto, ao agrado na sensação, mas à percepção dos diversos elementos que o conformam e que despertam uma relação harmoniosa e prazerosa entre as faculdades do sujeito ajuizante. 

No instante de seu nascimento, a forma ocupa parte significativa das preocupações da estética  também em sentido negativo. Assim se compreendem, por exemplo, os esforços de Kant, mas também de outros autores ao longo do século XIX, para caracterizar o sublime como resistência à forma ou aformalidade. O mesmo ocorre com a noção de vazio nas filosofias orientais.

O formalismo, ou seja, a análise da forma como meio de julgar o valor das obras de arte, foi associado ao modernismo e interpretado como um modo de análise ahistórico e pouco crítico. A arte contemporânea pôs em xeque muitas das premissas modernistas, fazendo com que a crítica formalista passasse a soar definitivamente anacrônica à medida que as preocupações acerca do gosto começaram a parecer obsoletas.

Para Roland Barthes, contudo, quanto mais bem definido é um sistema em suas formas, mais permeável é do ponto de vista da crítica histórica. O antiformalismo que prevaleceu no discurso da crítica de arte nos anos 1970 pode ser explicado, em grande parte, por uma confusão entre dois tipos de formalismo: um que se preocupa essencialmente com a morfologia, um formalismo restrito, e outro que vê a forma como estrutural. Assim, o estruturalismo, tal como concebido por Barthes, pode ser entendido como um formalismo ampliado. Afinal, existe uma história das formas, das estruturas, dos textos, e a própria ideia de que as formas podem ser autônomas é histórica, testemunhando a incontornabilidade de outro conceito central para a estética em seu nascedouro moderno: o de história.

Mais do que a mera incorporação de um novo objeto, a necessidade de conceber o próprio pensamento historicamente constitui uma tendência maior do pensamento filosófico do século XVIII, especialmente marcante na tradição alemã. Esse movimento guarda desde o início fortes relações com o domínio artístico, não apenas como um campo ao qual o historicismo se aplicou, mas onde descobriu a si mesmo e melhor se desdobrou, estabelecendo um vínculo íntimo entre arte e história. Na estética, isso significou um rompimento com ideias centrais que embasavam a interpretação da arte, como a autoridade, a universalidade da razão e a normatividade do bom gosto. Assim como não se podia mais tomar a razão eterna e estática de certo racionalismo clássico como mestra do pensamento, tampouco haveria mais um cânon atemporal que determinasse as propriedades de uma beleza universal e paradigmática para julgar a arte. Em um rompimento com as poéticas clássicas e sua visada normativa, a filosofia deveria se debruçar sobre as artes em uma renovada compreensão de sua gênese e desenvolvimento nos diferentes modos como se deu através da história.

Essa postura da estética filosófica encontra seus primeiros germes em um autor cujo amor pelos gregos como modelos pareceria torná-lo estranho a essa tendência: Winckelmann. Mas é precisamente em sua atenção à arte grega como expressão de uma coletividade histórica que a consideração da arte segundo regras e prescrições é inflexionada por um olhar genético do ideal, vislumbrado através das obras em um desenvolvimento, e também de um declínio. Assumindo e radicalizando essa perspectiva histórica winckelmanniana, Herder funda propriamente o historicismo na Alemanha, rebelando-se contra as imposições normativas do neoclassicismo e reivindicando, nas artes de cada período e povo, uma expressão completa e singular em si mesma.

Notoriamente, Hegel leva essa historicização da arte a um de seus pontos culminantes no início do século XIX. A partir de um sistema que incorpora o histórico como marca do próprio pensamento, Hegel propõe uma interpretação da história da arte que busca, em consonância com a unidade da razão, dar conta da ampla heterogeneidade das diferentes épocas e formas artísticas. Dialeticamente considerados, forma e conteúdo da arte deixam de ser opostos estanques e rigidamente separados (de um lado a lei ou o estilo e, de outro, as obras), para aparecerem em seu processo histórico de transfiguração mútua, de diferentes maneiras nas diferentes épocas. Hegel investiga pormenorizadamente o processo histórico da arte, desde seu surgimento com a arte simbólica, oriental, passando pela arte clássica dos gregos, até a arte romântica, que, iniciada no cristianismo, se estende até a modernidade. O núcleo da investigação dessa história, em Hegel, situa-se na relação entre forma e conteúdo, que se apresenta de modos distintos em cada etapa do desenvolvimento histórico da arte. Enquanto na arte simbólica há uma preponderância do conteúdo em relação à forma, a qual permanece estranha a ele e, portanto, abstrata, na arte clássica, a Ideia (ou Forma) concretiza-se plenamente no fenômeno exterior e nos acontecimentos humanos (nos Conteúdos). Com isso, apenas a arte clássica (grega), segundo Hegel, logra realizar plenamente a identidade entre forma e conteúdo, levando a arte a seu ápice. Tal unidade entre forma e conteúdo, espírito e matéria, característica da arte clássica, é no entanto dissolvida na arte romântica – a arte do cristianismo –, na qual o espírito se descola da matéria e se autonomiza. Trata-se do momento de descoberta da subjetividade do espírito, de sua interioridade, que perpassará a arte até seu momento derradeiro, na modernidade. Nessa nova etapa de seu desenvolvimento, a forma da arte, segundo Hegel, se descola novamente de seu conteúdo, assumindo preponderância.

Essa transmutação dialética entre forma e conteúdo pode ser observada concretamente nos gêneros poéticos tipicamente modernos, o romance, analisado por Lukács em Teoria do romance, e o drama moderno, investigado por Peter Szondi, em Teoria do drama moderno. Ambos expressam a dissolução e a perda da unidade imanente própria da vida burguesa (no caso do romance, a dissolução da forma da epopeia, e no caso do drama moderno, a dissolução da forma dramática). Ao atestar a emergência da forma no drama épico – o qual faz da cisão forma-conteúdo um princípio ele mesmo formal – Szondi, a seu modo, vincula-se a essa teoria hegeliana e ao mesmo tempo lukácsiana, evidenciando que o drama épico, do ponto de vista dialético, seria uma tentativa de resolução do problema da dissolução do conceito do drama clássico.

Tributária também de discussões setecentistas sobre autonomia e prazer desinteressado, há ainda outra tradição que atravessa o século vinte e é marcada pela hipótese estética de Clive Bell. Forma, nessa tradição, é um operador crucial de identificabilidade, ou seja, uma condição de possibilidade para teorias candidatas a fornecer uma definição real de arte. No entanto, e de modo talvez contraintuitivo, já em Bell a aplicação do operador “forma” mantém relação interna com uma dimensão afetiva, ainda que restrita a um tipo específico de emoção – justamente a emoção estética. Desdobra-se, assim, nessa tradição, ao longo do século vinte e no nosso século, todo um conjunto de tensionamentos entre diferentes dimensões em jogo nos processos artísticos de produção e recepção, representando diferentes estratégias teóricas apostadas ora em propriedades, ora em atitudes, ora em simbolismo. O tema deste encontro, “Forma, tempo, história”, pode recuperar transversalmente esses tensionamentos: como pensar a forma não como o lugar de uma redução, mas como o lugar de um engajamento da atenção no tempo cuja inteligibilidade emerge de conversações tanto do mundo da arte quanto do contexto social alargado e historicizado, rompendo com o solipsismo epistêmico de versões também redutoras de cognitivismo? E, ao mesmo tempo, como pensar esse lugar de modo a não tornar a forma um mero instrumento, mas, antes, um modo de articulação do conteúdo dessas conversações por meios próprios, de tal forma que não se deixe parafrasear sem desvirtuar a sua expressividade? Qual o papel da crítica como ativadora ou mediadora dessa expressividade medium-specific? É o que estetas atuais como Dominic Lopes, John Gibson, Elizabeth Schellekens, Eileen John e María José Alcaraz León vêm pensando, a partir de trilhas abertas por vozes como Danto, Stolnitz, Goodman, Walton, Sibley e outros.

Com o propósito de fomentar o debate filosófico a partir desses três conceitos fundamentais da tradição estética, o 18º Congresso Internacional de Estética Brasil convida pesquisadoras e pesquisadores a abordarem alguns dos problemas pertinentes a esse vasto campo de investigação teórica ou a possíveis interlocuções entre eles.

Formato do evento

A 18a edição do Congresso Internacional de Estética Brasil será realizada de modo presencial entre 22 e 26 de novembro de 2027 na Universidade Federal da Bahia. Haverá plenárias com pesquisadores convidados e mesas com apresentação de submissões aprovadas. As mesas serão compostas de três pessoas, aceitando-se inscrições de mestrandos, doutorandos e doutores, com a possibilidade de apresentação de painel.

Subtemas

O 18o Congresso Internacional de Estética Brasil: Forma, Tempo, História acolherá pesquisas que abordem o tema principal, em sua complexidade e multiplicidade de perspectivas, vinculado a um dos seguintes subtemas a ele relacionados.

  • Crítica de arte e Curadoria
  • Design, arquitetura, cidade e espacialidades
  • Estética e História da Arte
  • Estética como disciplina filosófica
  • Estética, Brasil e descolonização
  • Estética e identidades
  • Estética e psicanálise
  • Estéticas do corpo
  • Ética e estética
  • Filosofia e literatura
  • Indústria cultural
  • Metaestética e metacrítica
  • Política e estética
  • Tecnologia e mídias

Apoio

A organização desse evento conta com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal da Bahia.